Em diferentes momentos de suas vidas, Carlos Alberto Maciel e Elione Silva foram atingidos pela fatalidade. Ambos sofreram acidentes que os tornaram deficientes. Mas Beto - como é conhecido o primeiro -, que teve o braço esquerdo amputado, e Elione, que perdeu uma perna, não ficaram se lamuriando. Eles se dedicaram à natação e, hoje, por incrível que pareça, admitem que com a deficiência alcançaram feitos nunca imaginados antes de suas tragédias pessoais.
A reportagem encontrou os dois paratletas na terça-feira, 11, no Náutico Atlético Cearense, treinando para as provas da natação da terceira e última etapa do Circuito Caixa Loterias de atletismo, halterofilismo e natação, que acontece neste fim de semana em Fortaleza. E Beto foi taxativo: "tudo que de bom aconteceu na minha vida após o acidente, devo a minha deficiência. Nem nos melhores sonhos, quando ainda criança normal, imaginava chegar aonde cheguei".
Como paratleta da natação, ele conseguiu se destacar a ponto de ser convocado para o Parapan do México-2011 e integrou a seleção brasileira na Paralimpíada de Londres, em 2012.
"Chegar a uma Paralimpíada é difícil", frisou ele, que é de Morada Nova. "Além de você conseguir o índice, há o limite no número de vagas. Em 2012, para Londres, só foram 21 para-atletas na seleção", recordou.
Presente duplo
E Beto até hoje festeja a ida para Londres. "Tínhamos várias classes, pessoal de alto nível, mas Deus, além de me dar uma Paralimpíada, a abertura dos Jogos foi no dia do meu aniversário, 29 de agosto [...]. E essa data não tem como esquecer. É como se Deus tivesse dito: 'por tudo o que você passou na sua vida, vou lhe dar um presente agora'. E me deu uma Paralimpíada no dia do meu aniversário".
O mais incrível é que Beto, antes do acidente que levou seu braço, nunca havia nadado. "Após o acidente, aos 12 anos de idade (em 18 de dezembro de 1989), um descuido, pois estava numa máquina de bater arroz (uma trilhadora), meus três irmãos viram que eu estava muito parado, quase em depressão, e me chamavam para nadar. Foi quando comecei a nadar e, no fim das contas, estava nadando igual ou melhor que as pessoas com dois braços. Por isso acho que a natação, para mim, foi uma coisa de Deus", ressaltou.
Nova vida
Como paratleta, Beto iniciou no triathlon e a partir de 2008 aderiu à natação, esporte que já lhe rendeu muitos pódios, medalhas e que o levou a conhecer e competir em países que nunca antes havia sonhado. Nas piscinas, o moradanovense quebrou logo dois recordes nacionais nos 100m peito e 100m borboleta. Foi ao Parapan do México, onde faturou medalha de ouro nos 100m peito, e disputou os Jogos Paralímpicos de Londres-2102.
Foco em 2015
Nesta temporada, Beto participou das duas primeiras etapas do Circuito Caixa Loterias, ambas disputadas em São Paulo.
Na etapa de abertura, faturou ouro nos 100m peito, 100m borboleta e bronze nos 200m medley. Na segunda, foi ouro nos 100 peito, prata nos 100 borboleta e bronze nos 200m medley.
E com esses resultados está na luta por uma vaga no Parapan de Toronto, no Canadá, em 2015, e quer disputar o Mundial em Glasgow, Escócia. "O foco na etapa de Fortaleza do Circuito Loterias Caixa é melhorar cada vez mais os tempos - ele marcou 1m23s no ouro dos 100m peito na 1ª etapa -, para sonhar com o Parapan e o Mundial", salientou.
Reaprendendo a andar
Após um acidente de moto, Elione Silva, teve uma perna amputada, aos 25 anos de idade. "Depois do o acidente, não sabia o que fazer da vida, tive que reaprender a andar", disse Elione.
O paratleta de Aracati, único do Norte e Nordeste com índice para as provas da natação do Circuito Caixa nos 200m medley, 100m peito, 50 e 100m livre da classe S9, uma das mais concorridas, lembrou que o paradesporto entrou na sua vida com a reabilitação no Nami (Núcleo de Atenção Médica Integrada), da Unifor, onde conheceu o professor Vicente e fez amizade com Beto, "pessoas que transformaram a minha vida, me amparam e me mostram o melhor caminho", definiu.
Alan Fonteles realiza palestra na Unifor
Se a premissa de que a vida de um paratleta sempre contém histórias de superação é mesmo verdadeira, uma personalidade do mundo esportivo como Alan Fonteles deve contar um pouco de sua trajetória para o mundo. O paraense, um dos principais nomes do esporte paralímpico nacional, estará na Capital nesta sexta-feira para ministrar a palestra "Superação na vida e no esporte". O evento ocorre a partir das 9h, no Teatro Celina Queiroz, na Universidade de Fortaleza (Unifor).
Será o momento para o velocista relembrar, por exemplo, como deixou o público presente ao Estádio Olímpico de Londres boquiaberto ao superar a lenda do paradesporto, o polêmico Oscar Pistorius, na final dos 200m T44 nos Jogos Paralímpicos, em setembro de 2012. O fato fez com que o brasileiro, vítima de uma sepsemia gerada por uma infecção intestinal na infância - o que fez com que tivesse parte das pernas amputadas - se tornasse capa de diversos jornais na capital inglesa na ocasião.
Testemunho
O atleta paraolímpico Fernando Fernandes esteve em Fortaleza, ontem, para falar sobre sua trajetória no esporte - desde antes do acidente à nova carreira. Em palestra no auditório Blanchard Girão, anexo à Arena Castelão, o campeão mundial e bicampeão sul-americano de canoagem revelou o choque ao sofrer o acidente que o deixou paraplégico em 2009 e contou que viu o esporte como a saída para retomar a rotina - ele era modelo e se preparava para um grande evento na Europa. "Enxerguei o esporte como ferramenta de comunicação com o mundo", declarou.
Fernandes estabeleceu como meta correr a São Silvestre em 2009 e passou a fazer treinos diários com a cadeira de rodas para suportar os 10 km da maratona. Foi o último colocado da prova, mas ganhou motivação para permanecer no esporte. Testou, então, a canoagem. "Quando sentei no caiaque pela primeira vez, reencontrei a liberdade", disse. Inspirado no ídolo Ayrton Senna, o atleta estabeleceu três pilares para o sucesso: sonho, planejamento e trabalho.
Mais informações:
3ª etapa do Circuito Caixa Loterias, de 14 a 16 de novembro. Locais: Universidade de Fortaleza - Unifor (Atletismo e halterofilismo) e Náutico Atlético Cearense (natação). Entrada gratuita
Moacir Félix
Repórter
http://diariodonordeste.verdesmares.com.br/cadernos/jogada/redencao-pela-tragedia-1.1150372

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